Resiliência



Foi assim num domingo qualquer

Um pouco cinzento e um pouco frio que meu trem descarrilhou na neve

Não mais tão fofa, já naquele momento

Escorregou escorregou

E foi destruindo todo meu castelo construído na areia, de

Fundação rasa, de

Fundação incerta

De um conhecimento até então apenas lido

Talvez conhecido apenas numa mente ainda um tanto

Tato

Ou um pato, inteira humana

Pobrezinha insensata

Como Brumadinho

Vi minhas barragens caírem ao léu

Esvaírem

E eu sendo rapidamente tomada por uma lama escura e densa

Que é meu lado em sombra

Tomou tudo por onde passou

Não sobrou pedra sobre pedra

Como pode um vento tão, aparentemente, pequeno

Ser um pesado tão enorme e devastador

Cheio, pleno de dor

Inconformados, formatos vazios

Esvaiu tudo

E matou tudo o que tocou

Tomou

Sujou

Grudou e por fim, lhe tirou o ar

A vida, o amor recém admitido e por fim, a crença

Pôs todos na dúvida da incerteza

Da crescença

Do descrédito

E de tanto nadar

Tentar e tentar subir à superfície,

Quando olhei para cima e vi que mais e mais eu descia...

Eu desisti...

Decidi aproveitar a passagem só de ida ao profundo

Decidi me deixar esvaziar

Um mundo de trabalho

Do mudo trabalho

E naquele momento

Uma parte de mim morreu

Sofreu

Murchou

E desapareceu

Como pode uma rachadura tão pequena causar um torpor tão profundo

É... Sou o mar que sou...

Agora não mais límpido

Talvez nem fosse, estivesse turvo se enganando com os poucos raios de sol que deixava entrar

E eu cansei... Cansei de querer

Cansei de arduamente desejar

Desisti de lutar

Apenas deixei-me tomar

Como pode uma pequena lasca

De uma falta de confiança infindável, destruir todos os tempos tão rapidamente?

Destrói um passado no presente do sonho futuro...

É devastador

Ver meu jardim em dor

O pior é ver roubarem sem pudor

Uma flor

Outra flor

Um botão

Uma tatuagem

Um nome

Uma ideia

Um sentimento

Uma fala

Um portar-se

Um evoluir

Todos tão meus e todos tão EU

Noutros...

Como se fossem jardins pudicos

E eu deixo, porque eu mesma

Antes tão corajosa e valente

Tenho medo de me apossar do meu próprio buquê

Então deixo que se esbaldem no meu jardim, arranquem as rosas

Destruam as mudas

E eu de longe, só observo

O cair de gotas até

Cair a noite, que é quando reconstruo tudo

Com maior esmero que tiver

Todo amor que puder

Muda

Estúpida

Fraca

Fracassando em todo o céu que me foi dado...

E seguem-se os dias, caídas no trabalho na noite

Mas agora acabou, porque me acabei...

Agora virou lama, espero virem esbaldar-se na minha terra sob a qual jaz essa parte de mim

“Aqui jaz a pobre empática de coração mole, que passou meia vida a reerguer noite após noite seus sonhos dilacerados pelas mãos habilidosas de ladrões entorpecidos, por medo de apossar-se do que tão divinamente lhe foi dado”

E digo mais

Que se danem! Vão banhar-se em assumir seu próprio torpor

Lutem vocês com seus próprios conhecer-se

Procurem suas próprias histórias, procurem suas próprias ideias, procure seus próprios sentimentos, seus próprios pesares e seus próprios ver-se em meio aos espelhos embaçados da certa, certeira sociedade judiciosa

Chega de aproveitar-se do meu árduo trabalho

Meus raios, chuvas e ventos não perdoarão uma migalha se quer desse passado infame

Jamais deixarei que tomem partes de mim novamente

Porque do meu castelo não tive coragem de me apossar

Foi tirada de mim cada conquista, uma a cada lágrima que deixei

Envasadas com cada uma das ideias que falei

Somente por não ter coragem pra tapar aquela rachadura

Dura, dura

Que é aceitar-me e

Apossar-me

Do que foi trabalhado e conquistado por mim

Construído e lapidado por mim

Era tanto o medo da morte chegar

E com sua luz iluminar-me naquela noite

Era tanto o medo de ver o estrago que permiti naquele dia, que

Segurei a porta com toda a força para ela não entrar

Foi de tanto tentar, foi tanto o esforço, que me perdi e

Quando olhei para trás para ver quem me cutucava

Era ela mesma a me reverenciar

"Boas noites pequenina boazinha, fez boas perdas das suas colheitas nestes anos?"

Suspirei cansada, larguei meus braços ao lado do corpo franzino

E de tão cansada de lutar contra a vida

Parei de me debater

E ela também, como o padrão que venho repetindo todos esses anos

A deixei roubar um pedaço do que eu lavrei, como seu

Já nascida sem o medo da morte, agora perdi também, o medo pela vida...

Basta!

 textos... 

Nailê Rabelo Atelier

aquarelas|sketches|textos|eventos

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